O sociólogo Zygmunt Bauman morreu, e eu com isso?!

Aqui é o Professor Raphael Reis, do Estratégia ENEM e do Estratégia Concursos.

Embora este artigo seja direcionado para os estudantes do Estratégia ENEM, convido também os estudantes do Estratégia Concursosà à leitura deste artigo, principalmente aqueles que irão fazer algum concurso que é exigido a redação como critério de seleção.

Se você é meu aluno ou já foi meu aluno, certamente já escutou quais são as 3 contribuições da disciplina de Sociologia no ENEM. A primeira e mais óbvia, é que o conteúdo de sociologia é importante para resolver as questões específicas desta disciplina; segundo, contribui para resolver questões das demais disciplinas de Ciências Humanas (Filosofia, Geografia e História), devido a interdisciplinaridade; terceiro, a meu ver, é a principal disciplina – não a única – para desenvolver argumentos, reflexões e problematizar o tema da redação do ENEM.

Se você é uma pessoa antenada ficou sabendo que o sociólogo polonês Zygmunt Bauman faleceu recentemente, aos 91 anos. Você pode se perguntar: “e eu com isso?”

Bem, Bauman é considerado um dos sociólogos mais importantes do século XX. Suas concepções teóricas abrangem vários objetos e realizam interdisciplinaridade em várias áreas do saber. Posso garantir que se você fizer referência ao pensamento de Bauman em sua redação, usando de maneira correta e contextualizada suas reflexões e conceitos, isso mostrará uma baita sofisticação aos corretores, o que causará um impacto positivo.

Embora nunca tenha visto uma questão do ENEM cobrar diretamente algo relacionado ao pensamento do sociólogo polonês, não ficaria surpreso se aparecer alguma questão no exame de 2017.

Os professores que elaboram os itens da prova do ENEM, bem como aqueles especialistas escolhidos pelo INEP (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira), para elegerem o tema da redação ficam de olho nas atualidades. Ainda, levando em consideração que as temáticas propostas na redação costumam ter apreço pelo lado social, conhecer os principais conceitos e reflexões deste senhor simpático que carregava sempre consigo o seu cachimbo, é fundamental.

Antes de prosseguirmos, quero convidar você a dar uma olhada no nosso novo site, 100% focado no ENEM. Nele, há muito conteúdo gratuito e de qualidade das diversas disciplinas, que irá contribuir com sua preparação para o ENEM. Confere aí Estratégia ENEM.

Zygmunt Bauman é autor do conceito de “modernidade líquida”, que pretende explicar as transformações que o mundo passou a partir da 2ª Guerra Mundial até os dias atuais.

Após a 2ª Guerra Mundial (1939-1945), a ideia de progresso da humanidade se esvaiu, visto as arbitrariedades que aconteceram neste período, com destaque para o Holocausto dos Judeus e para os mais de 60 milhões de mortos. Em seguida veio a bipolarização do mundo (bloco capitalista americano X bloco socialista soviético), que irá marcar a Guerra Fria (1946-1990), na qual a tensão era enorme (pela primeira vez na História a ameaça de dizimar os seres humanos através do uso da bomba atômica era uma real possibilidade). De lá para cá, temos uma intensificação de vários conflitos étnicos e geográficos no mundo. Acompanhamos o desenvolvimento da “Globalização”, que vem transformando a paisagem social moderna. Estamos presenciado o medo do terrorismo em escala mundial, os conflitos imigratórios, a superação das barreiras geográficas, uma sociedade do e para o consumo, um sistema econômico capitalista que cada vez mais aumenta as desigualdades sociais, etc.

O panorama acima configura a modernidade líquida. Para Bauman, a modernidade líquida é um mundo sem forma, de incertezas, de medos, de ausência da concepção de progresso e fragilidade nas relações sociais. Este atual momento do período histórico é diferente do que ele denomina de “modernidade sólida”, que começou a ser concebida com o Renascimento (valores do humanismo) e consolidada com o Racionalismo (René Descartes, Francis Bacon, Espinosa) e com o Iluminismo (John Locke, Rousseau, Montesquieu, Voltaire, Kant, etc.).

Na modernidade sólida havia a preocupação de organizar a sociedade através de leis civis e do exercício da ética. Existe a rigidez nas relações sociais entre os sujeitos e as instituições sociais. A crença na razão para que o homem dominasse a natureza e intervisse de maneira a proporcionar o bem-estar coletivo.  O conhecimento era extremamente valorizado, bem como a sua divulgação (lembrar dos Iluministas que debatiam suas ideias nas ruas e nos salões, além de organizar o saber sobre diversos assuntos na Enciclopédia). Os avanços das investigações científicas e filosóficas eram notórios. As principais concepções políticas do século XIX (liberal e marxista), cada um a seu modo, objetivavam o progresso da sociedade e o melhoramento dela.

Contrapondo algumas características da modernidade sólida (XVI-1945), a sociedade líquida (1946-2017) está sem forma definida, um período de transição. A liquidez da sociedade não consegue tomar forma porque está em constante transformação. Não consegue desenvolver um projeto coletivo de sociedade a longo prazo – a política e suas reivindicações estão cada vez mais fragmentadas. Outra característica marcante para Bauman é que se perdeu a ideia de utopia, o que faz com que se perca o caráter reflexivo em relação à sociedade.

Os indivíduos “líquidos” estão preocupados em buscar o prazer individual, o sucesso individual, abdicando a concepção de bem-estar da coletividade. A atual sociedade está sendo regida cada vez mais pelos valores e regras do Mercado, cujas concepções introjetam no indivíduo as ideias de concorrência, de felicidade no consumo e que o indivíduo basta em si mesmo.

O Mercado não propicia um planejamento de vida, já que os empregos são cada vez mais voláteis, temporários e flexíveis. Se antes alguém entrava numa determinada empresa e se aposentava nela, agora, isso não existe mais (as pessoas passam por várias experiências e são sondadas frequentemente pelo desemprego). O Estado também não consegue colocar em prática aquilo que prometeu, não consegue garantir os direitos sociais básicos. Cada vez mais oferece menos aos cidadãos.

Com o advento da modernidade líquida, a estrutura social moderna em torno da fixidez, da razão e do progresso se dilui. Para o sociólogo polonês as relações passam a ser voláteis. As instituições sociais passam por uma descrença e não são mais pontos de referência. A sociedade estrutura suas relações principalmente pelas conexões virtuais, passando a perder ou a desconhecer as noções de intimidade, de privacidade e de individualidade – há uma necessidade de comunicar tudo nas redes sociais, a rotina do dia a dia (desde um café da manhã a uma briga com a namorada).

Costumo brincar que o cogito de Descartes mudou para: “estou nas redes sociais, logo existo”. Perde-se o tempo interior, a reflexão com a realidade. Isso tem intensificado a solidão e modificado a maneira de produção do trabalho (cada vez mais é incentivado o trabalhador a realizar suas funções em casa e através de aplicativos colaborativo).

Nesta mesma perspectiva, presenciamos a liquidez dos valores. O conhecimento é fragmentado e apressado (como se fosse um fast-food). Mal a pessoa lê uma manchete de revista ou de jornal já acha que domina o assunto. No Brasil é incrível a quantidade de “pensadores” nas redes sociais. Conseguem concordar ou refutar rapidamente uma ideia, sem nenhuma reflexão. É comum encontrarmos pessoas que criticam o pensamento de Marx sem nunca ter lido sequer um livro dele, ou de pessoas que querem definir o pensamento político da direita sem conhecer nenhum autor desta corrente. Isso é devido ao processo de “aceleramento do tempo”, onde tudo tem que ser feito instantaneamente. Contudo, o conhecimento e a reflexão são processos que levam tempo.

Os valores éticos, os quais são pensados desde a Antiguidade Clássica, estão em crise. Por exemplo, o nosso bom e velho conhecido, o filósofo Aristóteles, dizia que o exercício da ética leva a felicidade e a responsabilidade do indivíduo. Para ele, ética é um hábito, portanto, precisa ser praticada. Para os iluministas, a liberdade de um sujeito termina quando começa a de outro, o que reflete a ideia de bem comum, de respeito. Na sociedade líquida o que interessa é a vontade individual: “se eu quero, eu posso”. A partir disso, a liberdade do outro é desrespeitada. É comum encontrarmos pessoas em lugares coletivos como, por exemplo, no ônibus, ligar o seu celular ou rádio em altura alta, obrigando os demais escutarem a mesma música – isso também se verifica no trânsito ou em outras esferas das relações sociais.

O medo se transforma em uma política tanto do Estado como do Mercado, o que restringe a liberdade. Há o medo do desemprego. Há o medo de se relacionar amorosamente (as relações são frágeis e incertas). O medo de ficar doente e não conseguir atendimento. Há seguros para tudo, que vão desde o seguro de carro ao seguro de vida. A indústria do medo faz com que as pessoas cerquem suas residências, se distancie do contato com outras pessoas e evitem as áreas públicas. A violência aumenta em números vertiginosos. Os medos são diversos.

Por fim, você pode estar se perguntando: “o que fazer?” Geralmente, o sociólogo é aquele pensador que está preocupado em entender a sociedade como ela se apresenta em sua perspectiva, e não em fazer previsões ou apontar caminhos a serem seguidos. Bauman nos dá algumas pistas a partir da metáfora que utiliza do “caçador e do jardineiro”.

Para ele, a metáfora que simboliza a era pré-moderna é a do caçador. Sua principal tarefa é defender os terrenos de sua ação de toda e qualquer interferência humana, com objetivo de defender, preservar e conservar o “equilíbrio natural”. A ação do caçador repousa sobre a crença de que as coisas estão no seu melhor momento, de que o mundo é um sistema divino, em que cada criatura tem o seu lugar legítimo e funcional. Por outro lado, a metáfora do jardineiro revela a era moderna. O jardineiro assume que não haveria ordem no mundo, mas ela depende da constante atenção e esforço coletivo de cada um. Sabe que tipo de planta deve crescer ou não, e que tudo está sob seus cuidados. Ele força a sua concepção prévia, o seu enredo, incentivando o crescimento de certos tipos de planta e destruindo aquelas que não são desejáveis, as ervas “daninhas”. É do jardineiro que tendem a sair os mais fervorosos produtores de utopias, conforme Zygmunt Bauman. “Se ouvimos discursos que pregam o fim das utopias, é porque o jardineiro está sendo trocado, novamente, pela ideia do caçador”.

Zygmunt Bauman públicou mais de 40 livros. Destaco aqui 5:

Modernidade Líquida

Amor Líquido

Globalização: as consequências humanas

Medo Líquido

Ética Pós-Moderna

Antes de realizarmos alguns exercícios, dê uma olhada nesta apresentação: https://goo.gl/Z1xgxc

Exercícios:

1 UFRJ)

No admirável mundo novo das oportunidades fugazes e das seguranças frágeis, a sabedoria popular foi rápida em perceber os novos requisitos. Em 1994, um cartaz espalhado pelas ruas de Berlim ridicularizava a lealdade a estruturas que não eram mais capazes de conter as realidades do mundo: “Seu Cristo é judeu. Seu carro é japonês. Sua pizza é italiana. Sua democracia, grega. Seu café, brasileiro. Seu feriado, turco. Seus algarismos, arábicos. Suas letras, latinas. Só o seu vizinho é estrangeiro”.

Zygmunt Bauman Adaptado de Identidade. Rio de Janeiro: Zahar, 2005.

A alteração de valores culturais em diversas sociedades é um dos efeitos da globalização da economia.

O cartaz citado no texto ironiza uma referência cultural que pode ser associada ao conceito de:

A – localismo

B – nacionalismo

C – regionalismo

D – eurocentrismo

Resolução: Bauman é um autor que tece reflexões sobre as imigrações, conflitos étnicos e geográficos. Aqui ele aborda uma crítica ao nacionalismo, que tem produzido a aversão ao outro, ao mesmo tempo que é “fruto” deste outro.

Gabarito: B

2 UENP)

Lei atentamente o fragmento de texto a seguir. Trata-se de uma entrevista com o sociólogo Zygmunt Bauman.

– Poderia falar mais amplamente sobre os riscos da modernidade?

– Uma das características do que chamo de “modernidade sólida” era que as maiores ameaças para a existência humana eram muito mais óbvias. Os perigos eram reais, palpáveis, e não havia muito mistério sobre o que fazer para neutralizá-los ou, ao menos, aliviá-los. Era óbvio, por exemplo, que alimento, e só alimento, era o remédio para a fome. Os riscos de hoje são de outra ordem, não se pode sentir ou tocar muitos deles, apesar de estarmos todos expostos, em algum grau, a suas consequências. Não podemos, por exemplo, cheirar, ouvir, ver ou tocar as condições climáticas que gradativamente, mas sem trégua, estão se deteriorando. O mesmo acontece com os níveis de radiação e de poluição, a diminuição das matérias-primas e das fontes de energia não renováveis, e os processos de globalização sem controle político ou ético, que solapam as bases de nossa existência e sobrecarregam a vida dos indivíduos com um grau de incerteza e ansiedade sem precedentes. Diferentemente dos perigos antigos, os riscos que envolvem a condição humana no mundo das dependências globais podem não só deixar de ser notados, mas também deixar de ser minimizados mesmo quando notados. As ações necessárias para exterminar ou limitar os riscos podem ser desviadas das verdadeiras fontes do perigo e canalizadas para alvos errados. Quando a complexidade da situação é descartada, fica fácil apontar para aquilo que está mais à mão como causa das incertezas e das ansiedades modernas. Veja, por exemplo, o caso das manifestações contra imigrantes que ocorrem na Europa. Vistos como “o inimigo” próximo, eles são apontados como os culpados pelas frustrações da sociedade, como aqueles que põem obstáculos aos projetos de vida dos demais cidadãos. A noção de “solicitante de asilo” adquire, assim, uma conotação negativa, ao mesmo tempo em que as leis que regem a imigração e a naturalização se tornam mais restritivas, e a promessa de construção de “centros de detenção” para estrangeiros confere vantagens eleitorais a plataformas políticas. Para confrontar sua condição existencial e enfrentar seus desafios, a humanidade precisa se colocar acima dos dados da experiência a que tem acesso como indivíduo. Ou seja, a percepção individual, para ser ampliada, necessita da assistência de intérpretes munidos com dados não amplamente disponíveis à experiência individual. E a Sociologia, como parte integrante desse processo interpretativo — um processo que, cumpre lembrar, está em andamento e é permanentemente inconclusivo —, constitui um empenho constante para ampliar os horizontes cognitivos dos indivíduos e uma voz potencialmente poderosa nesse diálogo sem fim com a condição humana.

PALLARES-BURKE, Maria Lúcia Garrcia. Entrevista com Z. Bauman. Tempo soc. [online]

Sobre as questões ambientais na contemporaneidade, assinale a alternativa INCORRETA

Uma das consequências humanas da globalização pode ser associada ao agravamento da questão ambiental.

  1. O desenvolvimento do capitalismo demonstra que os índices de industrialização são diretamente proporcionais aos índices de poluição, em termos absolutos.
  2. O estímulo ao consumo de produtos recicláveis pode ser considerado uma estratégia do capitalismo contemporâneo para manter os índices de consumo elevados.
  3. Embora as questões climáticas tenham se gravado por conta da globalização e do desenvolvimento do capitalismo, elas não podem ser consideradas uma categoria relevante para a compreensão da sociedade contemporânea.
  4. As questões ambientais e climáticas são uma espécie de “inimigo invisível” que caracteriza a modernidade contemporânea (“modernidade líquida”).

Resolução: a questão pede a alternativa INCORRETA, isto é, aquela que não está adequada ao pensamento de Bauman na entrevista. A única que mostra um equívoco é a D. Para ele, as questões climáticas são agravadas pela globalização e tem uma associação intrínseca com o desenvolvimento do capitalismo. Inclusive, para Bauman há duas conclusões possíveis e irreversíveis: 1) a interdependência entre as pessoas, pois o que acontece em determinado lugar é de interesse e relevância em todo o mundo e 2) as questões ambientais trazem um desafio ao ser humano sobre o esgotamento dos recursos naturais.

Gabarito: D

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