Mulher-Maravilha: o que o filme pode contribuir para os estudos do ENEM?

Prometo não cometer muitos spoilers.
Filmes, séries, histórias em quadrinhos, documentários são bons recursos pedagógicos para estimular debates, reforçar conteúdos e analisar aspectos do conhecimento humano.
Assisti recentemente ao filme “Mulher-Maravilha” (interpretada pela bonita e talentosa Gal Gadot). A produção é considerada um sucesso de bilheteria em vários países. Inclusive, quem diria que este seria o filme que salvaria a DC?
Provavelmente, os filósofos Adorno e Horkheimer, diriam que o filme faz parte da indústria cultural, a qual pretende a partir da lógica capitalista homogeneizar a subjetividade das pessoas com os seus valores, não se preocupando em informar ou oferecer elementos para o pensamento crítico, além de contribuir para a resignação frente às explorações do sistema capitalista. Talvez eles estejam corretos em alguns aspectos. De fato, as produções hollywoodianas estão preocupadas em agradar a “massa”, vender seus produtos e gerar lucro, e fazem isso de maneira bem competente, diga-se de passagem. Porém, penso que mesmo seguindo uma lógica instrumental na maioria das vezes, o cinema, por meio de bons filmes, pode sim trazer elementos, sentimentos e reflexões importantes ao nosso cotidiano. Portanto, ademais de uma boa fruição, em nosso caso específico, pode nos ajudar a perceber alguns pontos que estamos estudando nos cursos de Filosofia e Sociologia, no Estratégia ENEM.
As histórias em quadrinhos são interessantes, pois daria uma boa aula de História do século XX, perpassando pelo surgimento de heróis e super-heróis em contextos específicos desse século. A “Mulher-Maravilha” aparece pela primeira vez, em 1941, e sua origem remete à mitologia greco-romana.
Aqui já temos um primeiro elemento. A visão de mundo de nossa heroína corresponde à cosmogonia, isto é, a explicação da origem do mundo e dos seres por meio da narrativa mitológica e das teogonias (origem dos deuses), que influenciam diretamente a vida dos mortais. No filme, esta visão entra em choque com o logos (pensamento racional) do Ocidente, manifestado pelo personagem Steve Trevor e outros que Diana Prince (a Mulher-Maravilha) tem contato no mundo dos humanos, especificamente a Inglaterra da 1ª Guerra Mundial (1914-1918).
Em um ambiente predominantemente masculino, no qual a mulher e os grupos feministas estão lutando por espaço, reconhecimento e por vários direitos, dentre eles, como deixa bem explícito a secretária de Steve Trevor, o voto feminino, será uma heroína que conseguirá transpor as “intransponíveis” trincheiras da guerra.
Não é à toa que Hollywood está fazendo sucesso com um filme que dá centralidade a uma mulher como personagem principal e heroína – vale destacar que a direção do filme também é realizada por uma mulher (Patty Jenkins). Vivemos numa atualidade em que cada vez mais se discute gênero seja ele a partir do logo-centrismo homem/mulher ou da existência de outros gêneros para além do fator biológico masculino/feminino. No caso da mulher, discute-se as imposições culturais (desconstrução de que há uma “natureza” feminina, mas sim uma construção histórico-cultural do que é feminino), as desigualdades no mercado de trabalho e as violências que ainda insistem persistir (físicas, psicológicas e simbólicas). Vale recordar que o tema da redação do ENEM, em 2015, perpassou justamente pelo debate de gênero: “a persistência da violência contra a mulher na sociedade brasileira”.
Destaco que a Mulher-Maravilha é uma guerreira cheia de humanidade. Acredita naquilo que defende e procura fazer um mundo como deveria ser, muitas vezes de maneira ingênua, o que dá um bom toque de humor ao filme. Contraria as Amazonas e é motivo de estranhamento e descrença na sociedade dos humanos, representada pelos ingleses e alemães. Esta postura me faz lembrar o livro considerado pelos especialistas como o melhor de todos os tempos: “Dom Quixote de la Mancha”. Dom Quixote procurava viver de acordo com certos valores que não eram mais praticados ou existentes em seu contexto. Partiu em busca de aventuras para desfazer os agravos e as injustiças, cujo personagem nos conquista pela sua dignidade humana, ingenuidade e a vontade de construir uma sociedade mais justa – estes elementos parecem ser um dos principais para o sucesso da trama cinematográfica, bem como foi para a narrativa de Cervantes.
Em um mundo que persiste nos confrontos que dizimam milhares de vida (o caso mais emblemático e desumano é a Guerra da Síria) e que convive harmoniosamente com a miséria e as diversas desigualdades sociais, uma heroína dotada da vontade de paz e de amor pelo ser humano, se faz necessário à nossa fabulação.
Por fim, que fique registrado que a guerreira Antíope é Robin Wright, vulga Claire Underwood! Entendedores, entenderão =)

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Próximo Aulão ao vivo:

Tema: Análise da obra “Vidas Secas”, de Graciliano Ramos
Em pareceria com a Profª. Rafaela Freitas =)
Público: ENEM e demais interessados
Data: 05/07
Horário: 19h
Local: canal do YouTube do Estratégia ENEM