Filosofia: como devemos agir para uma vida feliz?

Embora pareça uma preocupação da nossa sociedade atual, as reflexões sobre felicidade é tema filosófico por excelência, há mais de 25 séculos. As respostas para a indagação acima variam no tempo e no espaço, de sociedade para sociedade.

Bem diferente do modo de pensar, sentir e agir na sociedade capitalista, na qual a felicidade é associada à busca material, ao prazer individual e ao sucesso individual, ou como diz Zygmunt Bauman, na quantidade de curtidas e de amigos no Facebook, felicidade na Antiguidade Grega era o objetivo supremo da vida humana. Em sua origem quer dizer um estado de fecundidade que gera vida e vitaliza nossa existência. Também são respostas bem diferentes da autoajuda, que se preocupa com regras, passo a passo e ganhar dinheiro com “receitas” milagrosas (na verdade quem é ajudado são os autores dessas obras!). Ademais, nesta perspectiva há o reforço do individualismo (como se o indivíduo bastasse a si próprio para ser feliz e que tudo depende somente dele).

Os filósofos gregos propuseram caminhos comportamentais e intelectuais para obtenção da felicidade verdadeira que, para a maioria deles, passava por uma concepção do coletivo, do bem da comunidade.

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Platão

Até então a felicidade estava a mercê das divindades, isto é, um caminho para a felicidade era não se indispor com os deuses e agradá-los – se você um um aficcionado por série como eu, vai recordar da série “Vikings”. Neste sentido, era algo instável. Contra esta instabilidade, Platão junto com Sócrates foi um dos primeiros a pensar numa busca da felicidade estável.

Sabemos que Platão entendia o mundo material (percebido pelos cinco sentidos) como enganoso, ou seja, por meio dele não se obteria a felicidade.

A forma de se conquistar a felicidade é abandonar a ilusão dos sentidos e ir em direção ao mundo das ideias, até alcançar o conhecimento supremo da realidade, correspondente à ideia de bem.

Essa ideia de bem está associada a sua doutrina sobre a alma humana, que dizia que o ser humano é essencialmente alma, sendo imortal e que ela existe previamente ao corpo, e o seu lugar não era o mundo visível, mas o mundo inteligível (apreendido somente pelo intelecto). Para ele, a alma se dividia em 3 partes:

  • alma concupiscente: situada no ventre e ligada aos desejos carnais;
  • alma irascível: situada no peito e vinculada às paixões;
  • alma racional: situada na cabeça e relacionada ao conhecimento.

A harmonização dos 3 tipos de alma levaria a felicidade, sendo que a alma racional subordinaria as demais. Para apoiar esta tarefa, Platão propunha 2 práticas:

Ginástica: exercícios físicos para cuidar do corpo, com o objetivo de proporcionar disciplina e domínio das inclinações negativas.

Dialética: método praticado por Sócrates como caminho para ascender do visível ao inteligível.

Estas duas formas, ginástica e dialética, levariam a contemplação das ideias perfeitas, a ideia do bem. O bem seria a causa de todas as coisas justas e belas que existem. Assim, seu pensamento sobre a felicidade poderia ser sintetizado num processo de busca contínua e progressiva: conhecimento = bondade = felicidade. Aquele que alcança o conhecimento verdadeiro, que culmina na ideia de bem, torna-se um ser melhor em sua essência.

Este bem precisa ser entendido dentro do contexto da pólis, da política, que era a atividade mais nobre, mais importante, porque através dela se buscava o bem de todos, da construção de uma sociedade justa.

Aristóteles

Embora tenha sido discípulo de Platão, refutou a doutrina do mundo das ideias. Valorizava também a atividade intelectual e contemplativa, mas resgatava o papel dos bens humanos (materiais), para alcançar uma vida boa.

Defendia que um ser humano só alcança o seu fim quando cumpre a função que lhe é própria e distingue dos demais seres, isto é, sua virtude lhe traz prazer. Essa virtude que a distingue de outros seres é pensar de forma racional, ou seja, só terá felicidade atuando com a razão. Isto se traduz numa contemplação intelectual da observação da beleza e da ordem do cosmo, mantendo essa prática a vida inteira. Além disso, propunha também que não se pode abandonar a companhia da família e dos amigos, da busca da riqueza e do poder. Estes resultam em prazer seja ele material ou social, indispensáveis à vida contemplativa, porém, antes de se passar à vida contemplativa, é preciso estar alimentado e a cidade em paz.

Somado a atividade intelectual e a outros prazeres, dizia que era preciso cultivar outras virtudes, tais como: coragem, generosidade e justiça. Isso tudo contribuiria com a felicidade humana.

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Epicuro

Deu uma resposta diferente da de Platão e da de Aristóteles para a questão da felicidade.

Epicuro (341 a.C a 271 a.C) recomendava o caminho do prazer, valorizando menos o papel do intelecto. Felicidade, para ele, é satisfação dos desejos. Em seu entendimento, tudo no mundo é matéria e refutava a doutrina do mundo das ideias. Portanto, se tudo é matéria, o ser humano é sensação e para ser feliz precisa do prazer e evitar a dor.

Uma das principais causas da angústia e infelicidade são as preocupações religiosas e superstições, pois impõe crenças que, na época, incutiam o temor às divindades e o medo da morte.

Afirmava que quem espera muito de alguém ou de alguma coisa corre-se o risco de se decepcionar. Portanto, é preciso eliminar os desejos desnecessários e se permitir somente ao que é necessário, com moderação. Ele fez a seguinte classificação dos desejos:

Nem todos os prazeres geram felicidade e há alguns que são superiores a outros, por isso, o filósofo Epicuro recomenda agir com prudência racional. Desse modo teríamos condições de governar a própria vida, sem depender de elementos externos, conquistando o estado de imperturbabilidade da alma ou ataraxia – esse é o objetivo principal para se chegar à felicidade conforme os epicuristas.

Estoicos

Zenão de Cício (335 a.C a 264 a.C) é considerado o primeiro filósofo desta corrente. Para os estoicos são felizes aqueles que vivem de acordo com a ordem cósmica, aceitando o seu próprio destino nele inscrito.

Esta corrente concebe o universo como um cosmos, ordenado e harmonioso, composto de um princípio passivo (a matéria) e de um princípio ativo (logos), que permeia, anima e conecta todas as suas partes.

Tudo que existe e que acontece tem um objetivo de ser, pois faz parte da inteligência divina. Os acontecimentos estariam pré-determinados e são necessários, nos cabendo simplesmente aceitar o destino definido. Tudo que acontece deve ser bom, pois é animado pelo bem contido nos princípios racionais que governam o universo. O importante é a ordem do todo, da totalidade do universo, isto quer dizer, o bem do todo é melhor do que o bem individual.

Em resumo, se acharmos que felicidade é tudo aquilo que desejamos inevitavelmente vamos topar com a infelicidade, já que basta fracassar em alcançar um desejo e nos tornaremos infelizes. Se não depende de nós, e sim de uma ordem cósmica, o que para o estoicismo poderia ser feito para o ser humano, dentro dessa pouca liberdade, contribuir com sua felicidade?

A vontade. Ela nos permite querer ou não querer as coisas. Usando-a posso optar em querer apenas aquilo sobre o que tenho poder de escolher que me faz verdadeiramente feliz. Neste sentido, a vontade vai em direção a dominar as paixões e controlar os pensamentos, pois estes geram as condições do afloramento das paixões.

Enfim, a pessoa deve não apenas aceitar o seu destino, mas também querê-lo, ou seja, amar o que é, o que tem e o que vive.

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Não sei se você já viu, mas realizei um aulão ao vivo sobre Felicidade: o que a Filosofia tem com isso? Aproveite para assistir e divulgar para os amigos.

Como o tema aparece no ENEM?

1. [ENEM] Alguns dos desejos são naturais e necessários; outros, naturais e não necessários; outros, nem naturais nem necessários, mas nascidos de vã opinião.

Os desejos que não nos trazem dor se não satisfeitos não são necessários, mas o seu impulso pode ser facilmente desfeito, quando é difícil obter sua satisfação ou parecem geradores de dano.

EPICURO DE SAMOS. Doutrinas principais. In: SANSON, V. F. Textos de Filosofia. Rio de Janeiro. Eduff, 1974.

No Fragmento da obra filosófica de Epicuro, o Homem tem como fim

A) alcançar o prazer moderado e a felicidade.

B) valorizar os deveres e as obrigações sociais.

C) aceitar o sofrimento e o rigorismo da vida com resignação.

D) refletir sobre os valores e normas da divindade.

E) defender a indiferença e a impossibilidade de se atingir o saber.

Análise: Epicuro, diferente de Platão e Sócrates, defende que tudo é matéria, inclusive a alma. Defende a satisfação dos desejos em busca do prazer. No entanto, para ele, é preciso moderar os prazeres, agir com prudência racional, contentar-se com pouco, pois assim não haveria dor, decepção, fontes da infelicidade. Neste sentido, fica claro que a alternativa correta é a A. Aproveito para destacar que a alternativa C está associada aos Estoicos.

ENEM 2013

A felicidade é, portanto, a melhor, a mais nobre e a mais aprazível coisa do mundo, e esses atributos não devem estar separados como na inscrição existente em Delfos “das coisas, a mais nobre é a mais justa, e a melhor é a saúde; porém a mais doce é ter o que amamos”. Todos estes atributos estão presentes nas mais excelentes atividades, e entre essas a melhor, nós a identificamos como felicidade.

ARISTÓTELES. A Política. São Paulo: Cia. das Letras, 2010.

Ao reconhecer na felicidade a reunião dos mais excelentes atributos, Aristóteles a identifica como

  1. busca por bens materiais e títulos de nobreza.
  2. plenitude espiritual e ascese pessoal.
  3. finalidade das ações e condutas humanas.
  4. conhecimento de verdades imutáveis e perfeitas.
  5. expressão do sucesso individual e reconhecimento público

Análise: diferente de Platão, a felicidade para Aristóteles não estaria no mundo ideal (inteligível), mas  no mundo concreto, no mundo sensível. Obviamente não descarta o intelecto, a razão como forma de acessar à felicidade. Embora, a felicidade possa ser associada à riqueza e ao poder, não identificava a felicidade como busca dos bens materiais e títulos de nobreza ou do sucesso individual, até mesmo porque a política (o bem da coletividade) era o mais importante. Assim descartamos as alternativas A, B e E. A alternativa D também não procede, porque não concebia o conhecimento como verdade imutável. A felicidade era a finalidade das ações e condutas humanas (alternativa C como correta), dedicada à vida contemplativa e a prática de outras virtudes sustentadas no bem-estar material e social.

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