A Ágora ateniense

Aqui é o Professor Raphael Reis, do Estratégia ENEM. Hoje vamos conversar sobre a Ágora ateniense e sua importância para os debates filosóficos e políticos.

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A Grécia como a conhecemos hoje não era assim na antiguidade, ou seja, não era um país unificado. As diversas “regiões” ou colônias eram cidades-estado, isto é, tinham autonomia. As duas principais cidades-estado que se destacaram foram a de Atenas e a de Esparta.

A concentração em torno de Atenas ocorrerá apenas no século V a.C, período este denominado de clássico, cujo pensamento socrático será um grande marco. As transformações sociais são várias: surgimento do comércio e do artesanato; criação de moedas, leis e da escrita; rompimento com a hierarquia de poderes, que levará a isonomia (igualdade dos cidadãos perante a lei), isocracia (igualdade dos cidadãos ao acesso dos cargos públicos) e isegoria (igualdade todos ao uso da palavra nas assembleias).

É um ambiente propício para a participação política, a ideia de bem público, de felicidade e bem-estar coletivo. O grego ateniense se vê como cidadão (o que é bom para a cidade é bom para ele). Isso faz com que a pólis seja um produto da racionalidade. As decisões são descentralizadas e tomadas de forma coletiva pelos cidadãos (é válido lembrar que o conceito de cidadania grega excluía homens com menos de 21 anos, mulheres, escravos e estrangeiros).

Essa dinâmica vai se realizar na Ágora, que era uma grande praça aberta, utilizada para diversas funções, tais como: religiosas, competições esportivas, assembleias, mercado, debate filosófico, exercício da cidadania e festivais – numa analogia, resguardadas as devidas complexidades, seria a praça daquelas “cidadezinhas” do interior, onde tudo acontece!

A ágora era o principal espaço de encontro entre as pessoas. Era o centro da pólis e ao entorno dela se ergueram edifícios públicos e monumentos, valorizando ainda mais a circulação e a presença das pessoas.

Esta grande praça pública era um espaço fixo, para o qual as pessoas se dirigiam, saindo de suas casas (oikos). Faziam trocas no mercado e deliberavam assuntos importantes para a vida dos cidadãos. Os rumos da cidade eram decididos coletivamente. Neste sentido político da ágora, os gregos vão considerar bárbaros aqueles povos que não se organizavam através de um espaço semelhante e que tinham como forma de governo a monarquia, portanto, a decisão não passava por um debate coletivo, e sim pela vontade de um só.

As ágoras eram uma realidade de diversas cidades-estado gregas, no entanto, é em Atenas que ela ganhará mais destaque e complexidade. Isso se deve ao fato da predominância de Atenas no comércio e na cultura, além de que a maior parte dos textos e vestígios arqueológicos preservados são de origem ateniense. A dinâmica de sua ágora serviu de inspiração para outras e nela aconteceram os principais debates e acontecimentos do mundo antigo.

Na ágora ateniense circularam as peças teatrais e seus autores; historiadores, poetas e filósofos. Como usamos popularmente, eram “figurinhas fáceis” na ágora: Tucídides, Ésquilo, Sóflocles, Demóstenes, Sócrates, Platão, Aristóteles.

Através das mudanças realizadas por Sólon, Clístenes e Péricles, a instituição da democracia ateniense tem na ágora suas raízes. Atenas, mesmo após perder sua hegemonia militar para Esparta, na Guerra do Peloponeso, permaneceu com influência cultural por séculos, inclusive com a criação de diversas “escolas” (academias e liceus), atraindo professores e alunos de filosofia, lógica e retórica.

A própria ágora passa por reflexões e debates. Aristóteles defendia que houvesse uma especialização das ágoras, cada uma com uma função própria: uma para as discussões políticas, outra para os negócios e outra para a prática do esporte e lazer. É uma visão de mundo deste filósofo, preocupado com a qualidade de cada ser, a classificação das coisas e com a hierarquia das coisas e dos seres. Já Platão, defendia que não se recebesse comerciantes estrangeiros na ágora, mas sim fora da cidade, para evitar os riscos e influências de pensamentos e práticas bárbaras vindas do exterior.

Como podermos perceber, a ágora será também o espaço dos filósofos, para o encontro e debate de suas reflexões.

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Desde o século VIII a.C, fora das duas principais cidades-estado, surge a filosofia, na cidade-estado de Mileto – Tales de Mileto será considerado o primeiro filósofo.

Se antes tínhamos uma explicação mitológica do mundo e dos seres, agora, procura-se explicar racionalmente o mundo. Os primeiros filósofos denominados de pré-socráticos procuraram o princípio que origina todas as coisas. Vão buscar a fonte (arché) de todas as coisas, principalmente nos elementos da natureza. O saber é tido como discussão pública, não é algo revelado como na mitologia, mas partilhado coletivamente.

Com a pólis e na ágora, a política ganha extrema importância. A palavra é a expressão dos cidadãos. Todos que pedem e usam a palavra (isegoria) tem o mesmo peso, pois além de ouvir, pode falar, pode participar. É a prática coletiva do debate, no qual é necessário convencer a assembleia em prol de uma ideia ou posicionamento – não é à toa que surgirá técnicas de persuasão com os filósofos chamados sofistas.

A Ágora surge como espaço da vida política, mas não somente isso. Nela tudo acontecia como já dissemos anteriormente. Portanto, debater o prazer de alcançar o conhecimento verdadeiro, de pensar a vida e a morte, o belo e o feio foram exercícios da razão amplamente colocados em prática na ágora.

A verdade deve ser debatida abertamente até ser aceita ou rejeitada. Este tipo de posicionamento foi levado ao ápice pelos filósofos denominados socráticos, tendo o próprio Sócrates uma “personagem” que ganhou notoriedade na ágora.

Diferente dos pré-socráticos, que procuravam nos elementos da natureza uma explicação racional para a origem do mundo e dos seres, os filósofos socráticos buscavam através da razão o conhecimento verdadeiro, preocupados em entender o ser humano, em seus aspectos morais e políticos.

Sócrates divulgava suas reflexões principalmente na ágora, conversando com todos os tipos de pessoas. Defendia e praticava que era necessário cuidar menos dos bens materiais para cuidar da alma. Viver honestamente, sem cometer injustiças, nem retribuir a uma injustiça cometida. Para ele, a felicidade não vem das coisas exteriores, mas sim da alma.

Através do método dialético (estruturado na “ironia”, na maiêutica e no diálogo), fazia com que os seus interlocutores percebessem seu próprio erro e provocava um “parto” das ideias, através de seus questionamentos e perguntas profundas.

O pensamento e a forma de vida de Sócrates não agradavam a todos. Era amado pelos mais jovens e odiado pelos poderosos. Embora sem nenhuma prova contra ele, foi julgado em praça pública sob acusação de não reconhecer os deuses da cidade e de corromper a juventude, sendo forçado a tomar veneno (cicuta).  Antes de falecer, segundo Platão, Sócrates incutiu mais uma dúvida em seus acusadores: “E agora chegou a hora de nós irmos, eu para morrer, vós para viver, quem de nós fica com a melhor parte ninguém sabe, exceto os deuses”.

A filosofia de Sócrates, divulgada por seu discípulo Platão, bem como as demais reflexões produzidas na ágora com os filósofos pré-socráticos, socráticos, sofistas e os céticos romperam o “muro” da Ágora e se expandiram para o mundo inteiro, influenciando até hoje o pensamento Ocidental.

Com a conquista da Macedônia e, posteriormente, com a conquista romana, no que ficou conhecido como período helenístico e greco-romano, a pólis foi dissolvida e a ágora passou por transformações, perdendo espaço o debate, a participação política e a deliberação pelos cidadãos sobre os rumos da cidade.

Antes de realizarmos alguns exercícios, dê uma olhada nesta apresentação: https://goo.gl/Z1xgxc

Exercícios:

1 (Enem 2015) O que implica o sistema da pólis é uma extraordinária preeminência da palavra sobre todos os outros instrumentos do poder. A palavra constitui o debate contraditório, a discussão, a argumentação e a polêmica. Torna-se a regra do jogo intelectual, assim como do jogo político.

VERNANT, J. P. As origens do pensamento grego. Rio de Janeiro: Bertrand, 1992 (adaptado).

Na configuração política da democracia grega, em especial a ateniense, a ágora tinha por função

a) agregar os cidadãos em torno de reis que governavam em prol da cidade.

b) permitir aos homens livres o acesso às decisões do Estado expostas por seus magistrados.

c) constituir o lugar onde o corpo de cidadãos se reunia para deliberar sobre as questões da comunidade.

d) reunir os exercícios para decidir em assembleias fechadas os rumos a serem tomados em caso de guerra.

e) congregar a comunidade para eleger representantes com direito a pronunciar-se em assembleias.

Análise: a ágora era uma reunião de pessoas na qual se promovia o debate. Era um espaço livre, isto é, uma grande praça pública, onde os cidadãos costumavam ir por diversas razões: participação política, troca de mercadorias, festivais, eventos religiosos, etc.

A: Atenas era uma democracia e não uma monarquia.

B: a Ágora era espaço para a constituição de assembleias a fim de debater e deliberar quais rumos e decisões  governo deveria tomar.

C: esta alternativa está correta, porque mostra a reunião dos cidadãos a fim de deliberarem sobre questões da pólis.

D: está equivocada porque as reuniões eram abertas aos cidadãos e as discussões não só giravam em torno de guerra.

E: era uma democracia direta e não representativa.

2 (Enem PPL 2012) No contexto da polis grega, as leis comuns nasciam de uma convenção entre cidadãos, definida pelo confronto de suas opiniões em um verdadeiro espaço público, a ágora, confronto esse que concedia a essas convenções a qualidade de instituições públicas.

MAGDALENO, F. S. A territorialidade da representação política: vínculos territoriais de compromisso dos deputados fluminenses. São Paulo: Annablume, 2010.

No texto, está relatado um exemplo de exercício da cidadania associado ao seguinte modelo de prática democrática:

a) Direta.

b) Sindical.

c) Socialista.

d) Corporativista.

e) Representativa.

Análise: na praça pública (ágora) aconteciam as assembleias com debates e deliberações sobre a vida da comunidade.

A: esta alternativa é a correta, pois a participação era direta, ou seja, qualquer cidadão poderia se manifestar. É importante frisar que a cidadania grega excluía homens menores de 21 anos, mulheres, estrangeiros e escravos.

B, C, D e E: são outras formas políticas de participação, mas que não fazem parte do período da Grécia Antiga.

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