A Sociologia de Pierre Bourdieu e de Jessé Souza

No dia 08/05, por meio de transmissão ao vivo no canal do YouTube Estratégia ENEM e no meu canal Don Raphael Reis, ministrei a aula Sociologia de Pierre Bourdieu. Nesta, o nosso objetivo foi apresentar os principais conceitos de Bourdieu e como utilizá-los para aplicar na redação do ENEM ou de concursos, bem como resolver possíveis questões.

Combinei com quem estava assistindo ao vivo que enviaria um bônus extra sobre a sociologia de Jessé Souza, que também pode contribuir com a sofisticação de seus argumentos em uma redação.

Se você quiser receber este artigo em arquivo PDF, faça o cadastro de seu e-mail em minha lista de e-mail. Vou enviá-lo no próximo sábado, dia 13/05.

Assista a aula sobre a Sociologia de Pierre Bourdieu:

 

[Antes de prosseguirmos, convido você a conhecer o nosso curso de preparação para o ENEM e baixar gratuitamente as aulas demonstrativas em nosso site: www.estrategiaenem.com]

Jessé Souza tem despontado no Brasil como um dos mais importantes sociólogos deste início de século (XXI). É formado em direito pela Universidade de Brasília, com mestrado e doutorado em Sociologia. Fez o seu pós-doutoramento na New School for social reserch.

Uma de suas principais influências teóricas é o sociólogo francês Pierre Bourdieu, por isso, insisto que é muito importante você assistir a aula supracitada.

De 2005 a 2008, empreendeu pesquisa sociológica empírica em todo o Brasil, que resultou numa nova percepção da realidade brasileira, dividida em 4 categorias de classe principais: “a ralé”, “os batalhadores”, “a classe média tradicional” e “os ricos”.

Assim como Bourdieu, o conceito de classe não é definido pela capacidade de consumo ou pela posição na produção, isto é, o critério de renda não é o fator mais importante para definir classe. Aqui, os elementos espaço social, campo, hierarquia social, distribuição dos capitais (econômico, cultural, simbólico, escolar, político, etc.) são importantes para definir e entender as classes sociais.

É a transmissão cultural familiar (algo mais invisível, pouco perceptível no dia a dia) que garante os privilégios de classe e coloca em xeque a ideia de igualdade de oportunidades e de meritocracia, sustentáculos da sociedade capitalista democrática, defendida por teorias de fundamentação liberal como, por exemplo, a Teoria do Capital Humano.

Na pesquisa de Jessé, a “ralé” são aquelas pessoas que estão abaixo da linha de dignidade, cuja principal característica laboral são os serviços braçais, pesados, musculares. Estas pessoas que totalizam 1/3 da população brasileira não têm a valorização, o reconhecimento e o respeito pela coletividade. Desde a família não recebem estímulos para se dar bem na escola. São os principais usuários do ensino público e do sistema único de saúde que, por sinal, são bem precários em nosso país. Nesta perspectiva, não precisa ser um gênio para concluir que a “ralé brasileira” vive em condições de subcidadania e que precisam da proteção do Estado, para lhes garantir o mínimo de dignidade humana.

Diferente dos filhos da classe média tradicional, os filhos da ralé não desenvolvem em sua socialização familiar o capital cultural legítimo e reconhecido pela escola e pelo mercado de trabalho. Capacidades como concentração, autoestima e disciplina, bem como garantia de tempo livre para os estudos, investimento na educação (matrícula nas melhores escolas), afetividade com bens culturais (livros, idiomas, museus, viagens, etc.), aspiração à ascensão social, inculcação desde tenra idade da norma culta da língua, capacidade de planejamento são alguns exemplos de transmissão – invisível – da herança familiar da classe média tradicional aos seus “herdeiros” (seus filhos).

[Antes de prosseguirmos, convido você curtir a minha página no Facebook (Professor Raphael Reis), se inscrever no meu canal do Youtube e me adicionar em seu Instgram: profraphaelreis]

Já a Nova Classe de Batalhadores (conceito cunhado por Jessé para criticar o que seria a Nova Classe Média – “nova classe C”) são pessoas que fazem parte da camada popular conjuntamente com as pessoas da ralé, mas com o diferencial que conseguiram melhorar sua renda e, por conseguinte, o poder de consumo. Contudo, também não desenvolveram e consolidaram o capital cultural legítimo exigido pelas duas principais instituições das sociedades democráticas modernas: o Estado e o Mercado.

Políticas de transferência de renda, economia aquecida (microcrédito), incentivo ao empreendedorismo individual, extremo esforço pessoal, sacrifício familiar favoreceram o surgimento desta nova classe, que passou a trabalhar em 2 ou até 3 empregos (muito comum os famosos “bicos”), totalizando jornadas exaustivas de 12 a 16 horas diárias de trabalho. Passaram a adotar uma estratégia de investir o orçamento familiar na educação de seus filhos visando à possibilidade de ascensão social.

Por meio de ações governamentais, lograram chegar nas universidades e escolas técnicas (estimulados também por políticas afirmativas). Outro fator, segundo Jessé, está associado ao pentecostalismo (religião da maioria dos batalhadores), a qual enfatiza que as pessoas são filhos de Deus, isto é, que estas pessoas “valem alguma coisa”, engendrando autoestima e o estímulo de que por meio do trabalho a pessoa pode vencer na vida. Isso também gera autodisciplina para o trabalho.

Diferente de outros países como Alemanha, E.U.A, França, Canadá, o que diferencia o Brasil deles, segundo Jessé, não é a corrupção como muitos são levados a crer, porque lá há também relações de favores, de corrupção tanto do Estado como do Mercado, mas sim a democratização do capital cultural legítimo, e de que aqui nós aceitamos milhões de pessoas numa linha de subcidadania, sem nos incomodar.

Dessa forma, na teoria de Jessé Souza, a democratização do capital cultural é o grande desafio no Brasil, porque ele é concentrado, enquanto em outros países como os supracitados, ele é mais democratizado.

Jessé propõe o debate de ideias e pretende mostrar aquilo que é “invisível” em nosso cotidiano, desmascarando a violência simbólica e o discurso “ético”, pautado na meritocracia e na igualdade de oportunidades. Mostra que é preciso ir mais fundo para entender as desigualdades sociais, além da necessidade de reformas sociais mais profundas.

Portanto, caro aluno, se o tema de sua redação tiver relação direta ou indireta com estruturas de desigualdades ou de dominação, você pode usar essas reflexões do sociólogo Jessé Souza, bem como as de Pierre Bourdieu, para estruturar seus argumentos. Ademais, apontar a necessidade de democratizar o capital cultural como uma possível intervenção social em sua redação pode ser uma boa, não acha?

Próximo Aulão ao vivo

Tema: Direitos Humanos e Cidadania

Data: 26/05

Horário: 19h

Local: canal do YouTube do Estratégia ENEM e no canal Don Raphael Reis